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sábado, 7 de maio de 2011

Estamos Sozinhos no Universo?

Desde os primórdios da nossa presença na Terra comtemplamos extasiados o céu noturno intensamente estrelado - naquela época não havia a poluição visual - e ficávamos imaginando o que seriam todos aqueles pontinhos luminosos tremeluzindo na abóbada celeste, vez por outra riscada por uma brilhante e fugaz estrela cadente.

Até o final do século XVI, prevalecia na Europa o engenhoso modelo cosmológico de Cláudio Ptolomeu, baseado na astronomia aristotélica (vide o post Suburbanos da Galáxia), que situava a Terra na região elementar, no centro do Universo, como uma esfera composta por terra, água, fogo e ar, e circundada por uma região etérea composta por onze céus, ou esferas concêntricas, nesta ordem: o Céu da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, das Estrelas Fixas, do Primeiro Cristalino, da Esfera Sólida Transparente, do Segundo Cristalino e o do Primeiro Móvel, todos com movimentos próprios em torno da Terra e reproduzindo - mais ou menos - os movimentos dos astros observados no céu. Para além desses onze céus estava o Empíreo, a habitação dos bem-aventurados e, no interior da Terra (ou abaixo de uma Terra supostamente plana), situavam-se os Infernos, a região dos... desventurados.

Nesta teoria, a questão importante para o nosso estudo é que, à exceção da Terra, todos os demais astros (o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas) eram considerados esferas perfeitas, não sendo formados por nenhum dos chamados quatro elementos transformáveis, mas por um elemento não transformável designado como a "quinta essência", bem ao estilo do ideal grego de beleza e perfeição e, assim sendo, inadequadas para o abrigo de seres vivos, imperfeitos, como nós.

Desta forma, ficava, a priori,  descartada qualquer possibilidade de vida extraterestre, o que combinava à feição com os dogmas da criação privilegiada defendidos pelo staus quo da época, centrado no poder da Igreja Católica Apostólica Romana.

 Com a invenção do telescópio por Galileu Galilei, que logo constatou que as esferas não eram perfeitas, mas permeadas por irregularidades (manchas, relevos, depressões, etc.) e que, como Júpiter, possuiam por vezes mais satélites do que a Terra, o Sistema Ptolomáico cai por terra e concomitantemente inaugura-se no Ocidente a era do paradigma   da Ciência, no qual a pesquisa e a observação são as  únicas formas de se validar uma teoria. Esta revolução ocorre inicialmente na Inglaterra e na Holanda, que à época já se encontravam fora da esfera de influência da Igreja Católica.

Planeta Marte
 Com o avanço dos instrumentos de observação prosseguiram as pesquisas e as descobertas, até que em meados do século XVIII e mais notadamente  partir do século XIX os telescópios conseguem observar com mais detalhes o planeta Marte, descobrindo-se as calotas, a inclinação do eixo de rotação gerando estações como ocorre na Terra e estruturas na superfície semelhantes a canais.

Todas estas descobertas levaram o astrônomo australiano Percival Lowell a publicar em 1895 o seu livro "Marte", seguido por "Marte e seus canais" em 1906, sugerindo que eles seriam obra de alguma civilização avançada já extinta.

Essas idéias inspiraram o escritor britânico Herbert George Wells a escrever "A Guerra dos Mundos" em 1897, narrando uma invasão de aliens de Marte à Inglaterra, incendiando o imaginário popular com a disseminação da crença da existência de "homenzinhos verdes" no planeta vermelho, embora análises espectroscópicas da atmosfera de Marte de 1894 já demonstrassem que não havia a presença nem de água, nem de oxigênio na atmosfera marciana. Em 1909, telescópios mais avançados conclusivamente colocaram um fim à teoria dos canais marcianos.

Detalhe do Meteorito Marciano ALH 84001
Mas, em 1996, descobriu-se na Antárctica um meteorito de origem marciana, o famoso ALH 84001, em cujo interior foram encontradas estruturas (veja o detalhe na foto ao lado) que sugeriam restos de micro fósseis, embora outros afirmassem que eles poderiam ser fruto da contaminação posterior por microorganismos terrestres, ou ainda serem apenas formações minerais. Mas, de toda forma, reacendeu-se o debate sobre a questão da possibilidade da vida em Marte, embora somente em nível microbiano.

A partir dos anos 20 do século passado, com a descoberta pelo astrônomo americano Edwin Powell Hubble de que as nebulosas eram, na verdade, outras galáxias, bem como com o redimensionamento do tamanho da nossa Via Láctea, a comunidade científica voltou a questionar com mais seriedade a questão da existência, não só de vida extraterrestre, mas também da possibilidade de existirem outras civilizações tão ou mais avançadas do que a nossa.

Em um Universo conhecido tão imenso, com 13,7 bilhões de anos de idade, contendo algo em torno de 300 milhões de galáxias e com a nossa Via Láctea abrigando cerca de 400 bilhões de estrelas, seria mesmo uma aberração que só a nossa minúscula Terra fosse habitada. Conforme afirmou o cientista, astrônomo e divulgador da Ciência americano Carl Edward Sagan, no seu livro "Contato": "Se nós estivéssemos realmente sozinhos no cosmos, isso seria um enorme desperdício!".

Esta nova perspectiva culmina então, no início dos anos 60, com o advento da famosa Equação de Drake, proposta pelo astrônomo e físico americano Frank Donald Drake, que, utilizando-se dos conhecimentos científicos produzidos por diversas áreas como Física, Astrofísica, Astronomia, Cosmogonia, Biologia, Química, Arqueologia, etc., faz uma estimativa da probabilidade da existência não só de vida, mas de vida inteligente, de civilizações extraterrestres, conforme iremos analisar a seguir:


Nesta equação, formada pela multiplicação de uma série de termos, o primeiro (N*) refere-se ao número de estrelas que estima-se existirem  na Via-Láctea, a nossa galáxia, fruto da sua observação, e que gira em torno de 400 bilhões de sóis. A equação prossegue então com os termos seguintes sempre multiplicando o resultado precedente.

Assim, temos o próximo termo (fp), que calcula qual a fração do total de estrelas da Via-Láctea consideradas aptas para o desenvolvimento de sistemas planetários ao seu redor. Essas estrelas são as chamadas estrelas de seqüência principal, como o nosso Sol; são estrelas de vida longa (10 ou mais bilhões de anos) e que, por serem longevas, irão posibilitar o desenvolvimento de planetas, formando sistemas. A observação estima que um terço do total das estrelas atendem a esse requisito; desta forma, das 400 bilhões de estrelas iniciais ficariam 400 bilhões / 3 ~ 133,3 bilhões de sóis que poderiam conter sistemas planetários.

O termo seguinte (ne), estima quantos planetas em cada um desses sistemas solares seriam adequados para o surgimento da vida, mais precisamente da vida conforme a conhecemos no planeta Terra, e não do ponto de vista da Exobiologia (ciência recente que tem por objetivo estudar a vida extraterrestre em geral), numa visão de certa forma geocêntrica, ou seja, a de que a vida, principalmente para as formas mais complexas como a humana,  só ocorreria nos moldes da biologia terrena.

Diagrama comparativo da Zona de Habitabilidade dos Sistemas Planetários do Sol e da Estrela Gliese

Recentemente, com o lançamento do Observatório Espacial Kepler, intensificou-se a busca por esses exoplanetas nas 100.000 estrelas mais brilhantes do céu. Esta pesquisa se concentra em planetas do padrão da nossa Terra. O planeta Gliese 581 d mostrado no diagrama acima (em destaque)  que gravita em torno da estrela Gliese 581 é um desses candidatos: mundos rochosos e que estejam orbitando em uma faixa de distância da sua estrela (chamada Faixa de Habitabilidade - vide o diagrama acima), que permita a ocorrência de água no estado líquido na sua superfíce e uma atmosfera com pressão e temperatura parecidas com a nossa (como foi retratado recentemente na ficção "Avatar", em relação à Lua de Pandora).

Assim sendo, tomando como base de estudo o nosso Sistema Solar, chegou-se a 2 possibilidades: a própria Terra e... Marte, onde presume-se pela sua geologia que outrora houve ocorrência de água líquida na sua superfície. Fazendo a conta teríamos 133,3 bilhões x 2 ~ 267 bilhões de planetas adequados à vida (vale lembrar que estamos considerando apenas a nosssa galáxia, a Via-Láctea).

Na seqüência da equação, o próximo termo (fl) procura estabelecer o número de planetas adequados à vida onde ela realmente surgiu, a partir da premissa de que um mundo pode até ser adequado à vida, mas que a sua ocorrência vai depender de uma série de fatores, podendo acontecer ou não.

A teoria consagrada atualmente em relação ao surgimento da vida na Terra é a do cientista soviético Aleksandr Ivanovich Oparin, que, nos anos 30 do século passado propôs, através do resultado das suas pesquisas, que a vida teria surgido da formação inicial de moléculas orgânicas básicas (aminoácidos) na atmosfera primitiva da Terra, que à época seria formada por metano, amônia, hidrogênio e água, e estimulada por descargas elétricas e raios ultravioletas  (fenômeno que foi confirmado pela famosa Experiência de Urey-Miller em 1953).

Com o passar dos evos, essas moléculas diluiram-se nos mares quentes do pré-cambriano, em uma sopa primordial, e foram reagindo umas com as outras assumindo uma complexidade cada vez maior, formando conjuntos de moléculas complexas - chamadas de coacervados - até que num dado momento esses agregados teriam dado origem à primeira molécula com capacidade de replicar a si mesma, que, evos depois, com a formação de uma membrana externa ... deu origem a uma proto-bactéria, que veio a ser o primeiro ser vivo do qual todos neste planeta somos descendentes, e que teria surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás.

A partir de então essas bactérias primevas foram se reproduzindo e evoluindo para, há cerca de 550 milhões de anos, surgirem os primeiros seres vivos multicelulares (esponjas e algas), num processo incrivelmente lento que requereu 3,5 bilhões de anos de evolução!

É por conta dessa complexidade toda no processo de surgimento da vida que este termo da equação é conservador e considera que apenas um terço de todos os planetas dentro da zona de habitabilidade teriam dado surgimento a formas de vida. Assim, temos que 267 bilhões de planetas adequados à vida / 3 = 89 bilhões de planetas onde a vida realmente surgiu.

Australopithecus Aferensis
 O termo em seqüência (fi) estima a fração de planetas onde a vida surgiu e que ao longo da sua evolução deram origem a vida inteligente como nós, os seres humanos.

Com o surgimento dos primeiros seres multicelulares e a subsequente evolução dos seres vivos complexos, primeiro nos oceanos e após nos continentes, o ancestral remoto do homem, o Australopithecus Aferensis, vai surgir no cenário da vida apenas há cerca de 4 milhões de anos atrás, para somente há 200.000 anos surgir a nossa espécie, o Homo Sapiens.

Dadas às imensas dificuldades da evolução, permeada inclusive por Eventos de Extinção em Massa de milhares de espécies, podemos afirmar que o surgimento do gênero humano pode ser considerado um evento raro, resultando neste fator da equação que estima a vida inteligente contemplar apenas um décimo dos planetas com vida. Assim, temos que 89 bilhões de planetas onde a vida realmente surgiu / 10 = 8,9 bilhões de planetas onde surgiu vida inteligente.

A nossa presença no planeta é tão recente que, se fosse possível comprimir os cinco bilhões de anos de existência da Terra em um único "ano", o homo sapiens só teria aparecido no dia 31 de dezembro, às 23 horas, 59 minutos e 45 segundos, ou seja, só teríamos surgido na superfície deste mundo há cerca de 15 segundos atrás deste ano fictício.

Conjunto de Radiotelescópios do Novo México
A seguir, o próximo termo (fc) estima a fração de planetas onde surgiu vida inteligente que desenvolveu uma civilização técnica (capaz de se comunicar com outras possíveis civilizações tão ou mais avançadas).

Neste termo da equação o rigor também é grande, face aos imensos desafios vencidos pelos seres humanos para, a partir dos primeiros agrupamentos no sul da África, efetuarem ao longo dos últimos 150.000 anos a incrível aventura de se disseminarem por toda a Terra, sobrevivendo a epidemias por vezes devastadoras, a uma fauna repleta de predadores, aos rigores climáticos de diversas glaciações e a cataclismos de toda espécie (terremotos, tsunamis, vulcanismo, inundações, etc.), para apenas nos anos 60 do século passado desenvolvermos a capacidade de nos comunicar com possíveis civilizações alienígenas através dos radiotelescópios, como o mostrado na imagem, assunto que foi tema do filme "Contato" baseado na obra homônima de Carl Sagan citada no início do texto.

Assim, chegou-se à conclusão de que em apenas um décimo dos mundos em que surgiu vida inteligente ela resultou no desenvolvimento de civilizações técnicas. Calculando, temos que 8,9 bilhões de planetas com vida inteligente / 10 = 890 milhões de mundos com civilizações tecnológicas como a nossa.

O último termo da Equação de Drake (fL), avalia o número de mundos na Via Láctea com civilizações técnicas que teriam sobrevivido a si mesmas, superando a sua "adolescência tecnológica". Este termo refletiu a situação geopolítica do planeta no início dos anos 60, num mundo polarizado entre a União Soviética e o Estados Unidos, vivendo sob o espectro de um holocausto nuclear. Nos dias de hoje a situação é diversa, multipolar, mas os arsenais nucleares ainda são mantidos pelas potências mundiais, inclusive por países como Paquistão e Índia!

A idéia deste termo então seria refletir a possibilidade de uma civilização se autodestruir e aos seres vivos do seu planeta antes de poder fazer contato com outras humanidades, recuando a evolução aos níveis unicelulares do período pré-cambriano, onde só existiam bactérias. Assim sendo, esta visão bastante pessimista reduziria em um centésimo a ocorrência de civilizações pós-tecnológicas, com 890 milhões de mundos com civilizações técnicas / 100 = 8,9 milhões de civilizações mais avançadas do que a nossa apenas na Via-Láctea, o que, mesmo com todo o rigor da equação, ainda é sem dúvida um número muito impresionante.

Os resultados da Equação de Drake incentivaram o avanço das pesquisas para a busca por inteligências extraterrestres, levando inclusive à construção dos poderosos radiotelescópios, como os de Arecibo e do Novo México (mostrado na imagem acima).

Assim, respaldados pela ciência do Século XX, que está sendo confirmada pelas observações dos sensores deste Século XXI, podemos responder à pergunta que é o tema deste post, afirmando que, mesmo com o conservadorismo e o pessimismo refletidos na análise dos termos da Equação de Drake concluímos que, estatisticamente existem - com uma probabilidade de acerto de 100% - cerca de 10 milhões de civilizações tão ou mais avançadas do que a nossa, ou seja:

***   DEFINITIVAMENTE, NÃO ESTAMOS SOZINHOS   ***

Indo além, do ponto de vista da Doutrina dos Espíritos, ou por outra, segundo o espiritismo, podemos afirmar, como testemunham os espíritos, que os mundos habitados do Universo não estão entregues à própira sorte, mas que, ao contrário, são governados por inteligências intelectual e moralmente muito, mas muito mais avançadas do que a nossa, os chamados espíritos perfeitos, como Jesus, resultando que, de acordo com esta ótica privilegiada, eventos como a destruição do planeta por "humanidades imaturas" seriam altamente improváveis, permitindo-nos tomar a liberdade de inserir na Equação de Drake um Fator J (fj) e remover o último fator relativo ao holocausto nuclear (f L), resultando na equação a seguir:

Desta forma, removendo as incertezas, infundadas do ponto de vista espiritual, da ocorrência de um holocausto nuclear devastador, chegamos com facilidade a cerca de um bilhão de civilizações avançadas apenas na nossa galáxia, e isso sem considerar a revisão dos demais termos estimados de forma conservadora, pois sabemos também que a evolução da vida na Terra foi cuidadosamente planejada e que, mesmo os Eventos de Extinção em Massa que ocorreram nos últimos 550 milhões de anos, como o que extinguiu os grandes sauros há 65 milhões de anos atrás, tiveram por objetivo a renovação e a depuração dos seres vivos, resultando numa posterior aceleração do processo evolutivo através de formas orgânicas mais aptas (os mamíferos) ao desenvolvimento, milhões de anos mais tarde, de seres inteligentes e portadores de livre-arbítrio como nós.

Em relação à questão da visão ainda geocêntrica das condições ideais para o surgimento da vida, podemos acrescentar também que no final dos anos 90 do século passado descobriram-se seres unicelulares - denominados de extremófilos - que conseguem sobreviver ou até necessitam fisicamente de condições geoquímicas extremas, prejudiciais à maioria das outras formas de vida na Terra.

Em 2010 divulgou-se com estrépito a descoberta de uma bactéria que incorpora o venonoso elemento arsênico como peça central do seu metabolismo. Assim, vamos a pouco e pouco chegando à conclusão exarada pelo espírito Galileu no Capítulo VI - Astronomia Geral do livro " A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo", de que:  "A chancela dos universos é a da unidade do princípio e a diversidade infinita das manifestações".

Afora a certeza da governança sábia e segura dos mundos pelos espíritos perfeitos, o espiritismo também nos traz relatos em diversas obras, sobre a existência de civilizações em mundos com condições fisioquímicas muito diferentes das do nosso orbe, como por exemplo em Júpiter, Saturno e Marte (apenas para citar o Sistema Solar), conforme relatado pelo Espírito Maria João de Deus, vertido pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro "Cartas de Uma Morta", e pelo Espírito Ramatis, vertido por Hercílio Maes no livro "A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores".

Naturalmente que os espíritos reencarnados nestes orbes se manifestam com corpos físicos adequados ao ambiente onde se encontram, tecendo suas túnicas perispirituais a partir dos fluidos desses planetas.

Podemos assim concluir o nosso estudo, seja do ponto de vista da Ciência, ou do ponto de vista ainda mais amplo da Doutrina Espírita, afirmando que nos universos a vida estua pujante em todos os seus quadrantes, vida inteligente, e por vezes de inteligências muito mais avançadas do que a nossa, seja na Via Láctea, seja nas mais de 300 milhões de galáxias que hoje contabilizamos apenas no Universo visível, revelando para os nossos espíritos atônitos uma pálida idéia da grandeza infinita da Criação Universal e do Criador de tudo e de todos, Deus.

No próximo post iremos, no âmbito do processo de transição que arautos de todas as latitudes nos dizem estar passando a Humanidade e a Terra, avaliar uma das predições "mais votadas" para os tempos do fim que prevê a ... Verticalização do Eixo Terrestre: Seria Possível?

Até lá!

terça-feira, 19 de abril de 2011

De Centro da Criação Universal a Suburbanos da Galáxia - Uma Odisséia Científica de 400 anos

Do século I da nossa era até o final do século XV preponderou no Ocidente, entre a elite que tinha acesso a alguma instrução, uma visão de mundo engenhosa, proposta pelo astrônomo grego Cláudio Ptolomeu no seu Almagesto (baseado na cosmologia aristotélica), apresentando um sistema de mundo geocêntrico (situando a Terra no centro do Universo), sistema que foi adotado como o respaldo, digamos científico, de alguns dogmas da Igreja Católica de então, que acrescentou ao modelo uma visão antropocêntrica, ou seja, a de que a Humanidade terrestre é a criação central e única de Deus, tornando-se assim a teoria cosmogônica oficial daquela época.

Cabe observar que esta teoria representava um avanço científico formidável em relação a uma outra visão de mundo mais precária, que coexistia com o modelo  geocêntrico e que perdurou até o final da Idade Média, de uma Terra plana, circundada por uma abobada celeste sólida que separava as águas inferiores das águas superiores, como sugere a gravura da época apresentada acima.

Realmente, observando-se o céu a olho nu (sem o auxílio de outros recursos), temos mesmo a sensação, embora ilusória, de que a Terra é plana e é o centro do Universo, e que todos os objetos do céu, inclusive o Sol e a Lua, giram em torno dela. E, mais do que a Terra, se não tivermos um pouco de humildade vamos acabar achando que nós é que somos o centro de tudo, uma vez que os nossos sentidos "nos dizem" que tudo está a nossa volta.

Mas, observando o céu detalhadamente, vamos descobrir uns poucos astros que também giram em torno da Terra, no chamado Movimento Diurno da Abóbada Celeste (o movimento relativo dos astros em torno da Terra), mas que, ao longo de um ano variam progressivamente a sua posição no céu, ora avançando, ora recuando, e que, em função desse movimento diferenciado, foram chamados pelos antigos de estrelas errantes, sendo mais tarde reconhecidos como os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Foi a partir da observação da posição deles com mais precisão que as coisas começaram a mudar.

Assim, a partir do século XV, com o avanço da Renascença na Europa começaram a aparecer "rachaduras" neste sistema, culminando com a publicação da obra De Revolutionibus Orbium Coelestium ("Da Revolução de Esferas Celestes"), do cônego, astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico que, a partir de observação das efemérides (posições astronômicas diárias) do Sol e dos planetas (as tais estrelas errantes), verificou que as posições observadas não se encaixavam no modelo geocêntrico de Ptolomeu, mas que, colocando-se o Sol no centro do sistema e a Lua como satélite da Terra, os dados observacionais coincidiam quase que exatamente com este novo modelo.

A sua teoria, chamada Heliocentrismo, é tida hoje como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da Astronomia moderna. Restrita a um reduzidíssimo núcleo de pensadores e estudiosos, não provocou nenhum alarde e por isso não constituiu em si uma ameaça ao status quo da elite dominante.

A situação muda de figura no início do Século XVI com a entrada em cena do físico, matemático, astrônomo e filósofo pisanês Galileu Galilei que, a partir da adaptação da luneta récem inventada por um ótico holandês, cria o telescópio e passa a observar em detalhes os astros no céu, em particular o Sol (descobrindo e estudando as suas manchas), a Lua (descobrindo o seu relevo e depressões, que chamou de mares), e o Planeta Júpiter, descobrindo quatro dos seus satélites (Io, Europa, Calisto e Ganimedes), hoje chamados de satélites galileanos em sua homenagem. Toda essa avalanche de novos conhecimentos e evidências derrubou definitivamente a crença no sistema geocêntrico, até porque também afirmava que os astros do céu seriam esferas perfeitas, sem qualquer mácula, o que foi peremptoriamente refutado pela observação, que expôs as irregularidades do Sol, da Lua e dos demais planetas, inclusive com a presença de satélites.

Com a divulgação das suas espetaculares descobertas não só para os estudiosos,  mas também para as massas, e com a publicação do opúsculo "O Mensageiro das Estrelas" a Igreja, agora sim, se sente ameaçada pelo desmoronamento do alicerce ptolomaico em que se sustentavam parte dos seus dogmas e instaura um processo no temido Tribunal da Santa Inquisição que termina com a condenação do ilustre cientista, que tem que negar publicamente o que havia descoberto.

Mas, mesmo com a reação eclesiástica, nunca mais a nossa visão de mundo seria a mesma, pois nós, definitivamente, já não podíamos em sã consciência considerar o nosso planeta como o centro do Universo, embora ainda nos sentíssemos como o centro da criação.

Nos séculos XVII e XVIII, com o avanço da tecnologia de construção dos telescópios, descobrimos que o Sol também não era o centro do Universo,  e que, afora isso, existiam milhões de outras estrelas maiores e mais brilhantes do que ele.

No início do Século XX, com a construção do gigantesco telescópio de Monte Palomar na Califórnia as  nossas crenças foram mais uma vez testadas com a descoberta do astrônomo Edwin Hubble de que a Via-Láctea é apenas uma entre milhões de outras galáxias e de que o Universo estava se expandindo.

No início dos anos 60, com a descoberta acidental da radiação cósmica de fundo, que vem a ser o resíduo, o eco, dos eventos ocorridos nos primórdios do nosso Universo, combinada com a axpansão verificada anteriormente por Hubble, confirma-se então a teoria  do Big Bang, que, mais recentemente levou a outras teorias que consideram seriamente a possibilidade de que o nosso Universo seja apenas um Universo-Bolha entre infinitos outros universos.

Realmente, é de perder o folêgo: até o Século XVI éramos o centro da criação universal! Com Copérnico e Galileu perdemos a nossa centralidade para o Sol que, pouco tempo depois, é desbancado por bilhões de outras estrelas que constituem a nossa galáxia, a Via-Láctea, que por sua vez, no Século XX passa a dividir o seu espaço com centenas de milhões de outras, às vezes muito maiores, em um Universo que, suspeita-se, seria uma bolha em expansão em meio a infinitas outras bolhas que poderiam conter universos muito, muito diferentes do nosso.


Mesmo na Via-Láctea não nos encontramos no centro; ao contrário, estamos na periferia, nos subúrbios da nossa cidade estelar (vide o círculo vermelho no mapa da galáxia). Graças a Deus, pois hoje sabemos que no centro da nossa galáxia encontra-se um gigantesco buraco negro, verdadeiro devorador de tudo o que existe em volta, inclusive a luz. Estamos em um braço distante da galáxia, acolhedor, pacato e rarefeito, relativamente protegidos dos eventos cataclísmicos que ocorrem no populoso núcleo.

Cá entre nós: como é bom ser suburbano! 

Toda esta análise pode ser resumida na animação a seguir, produzida pela NASA, intitulada "O Tamanho Comparativo das Estrelas":


 No próximo post iremos discutir a questão da nossa visão antropocêntrica: Estamos sozinhos no Universo?

Até lá!